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USP inicia mobilização para preservar espécie de coruja

A coruja-buraqueira, conhecida cientificamente como Athene cunicularia, está no centro de uma importante mobilização científica no interior de São Paulo. Pesquisadores da Universidade de São Paulo têm buscado engajar a população na preservação dessa ave, que sofre diretamente com os impactos do crescimento urbano no Brasil.

A iniciativa ocorre em Ribeirão Preto e é liderada pelo Laboratório de Etologia e Bioacústica, vinculado à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. O projeto une ciência e participação popular para monitorar a espécie e alertar sobre os riscos que a urbanização impõe à sua sobrevivência.

A coruja-buraqueira e seu habitat natural

Características da espécie

A coruja-buraqueira é uma ave de pequeno porte que se destaca por seus hábitos terrestres. Diferentemente de outras corujas, ela vive em buracos no solo, muitas vezes reaproveitando tocas abandonadas por outros animais.

Importância das áreas abertas

Essas aves dependem de ambientes abertos, como campos e áreas de vegetação baixa, para caçar e se reproduzir. Esses espaços permitem maior visibilidade para detectar predadores e capturar presas, como insetos e pequenos roedores.

Urbanização ameaça a sobrevivência

Expansão das cidades e destruição de ninhos

O crescimento urbano desordenado tem sido um dos principais fatores de risco para a espécie. Obras, construções e intervenções no solo frequentemente destroem ninhos sem que haja qualquer tipo de monitoramento prévio.

Além disso, a falta de planejamento ambiental em áreas urbanas contribui para a eliminação de habitats essenciais para a sobrevivência dessas aves.

Redução de áreas naturais

Outro impacto significativo é a diminuição das áreas abertas. Com o avanço de condomínios, ruas e empreendimentos, os espaços ideais para alimentação e reprodução da coruja-buraqueira tornam-se cada vez mais escassos.

Esse cenário pode levar à redução gradual da população, mesmo em locais onde a presença da espécie ainda é comum.

Presença não significa segurança

Espécie sinantrópica e adaptação urbana

A coruja-buraqueira é considerada uma espécie sinantrópica, ou seja, consegue viver próxima aos seres humanos. Essa característica pode dar a impressão de que ela está adaptada e segura nas cidades.

No entanto, especialistas alertam que essa adaptação pode mascarar um problema maior.

Declínio silencioso

Mesmo sendo frequentemente vista em áreas urbanas, a população da espécie pode estar em declínio. Isso ocorre devido à perda de habitat, aumento da mortalidade e dificuldades na reprodução.

Ou seja, a visibilidade da ave não é um indicativo confiável de sua saúde populacional.

Mudanças no comportamento das corujas

Adaptações observadas

Pesquisadores identificaram mudanças importantes no comportamento das corujas em ambientes urbanos. Entre elas:

Maior exposição durante o dia

As corujas passam a ficar mais visíveis, possivelmente como estratégia de vigilância.

Uso de estruturas artificiais

Postes, cercas e outros elementos urbanos passam a ser utilizados como pontos de observação.

Aumento da vigilância

As aves permanecem mais tempo alertas fora dos ninhos, o que pode indicar maior percepção de risco.

Plasticidade fenotípica

Essas mudanças são explicadas pela chamada plasticidade fenotípica, que permite que os organismos ajustem seu comportamento diante de novas condições ambientais.

Entretanto, essa capacidade tem limites e não é suficiente para neutralizar completamente os efeitos negativos da urbanização.

Participação da população é essencial

Como os moradores podem ajudar

O projeto da USP incentiva a participação ativa da população por meio do envio de informações sobre a localização de ninhos.

Essa colaboração permite um monitoramento mais preciso da espécie e contribui para a elaboração de estratégias de conservação mais eficazes.

Entre as ações recomendadas estão:

Evitar interferência nos ninhos

Ao identificar um ninho, é importante não mexer ou se aproximar excessivamente.

Informar pesquisadores

O registro da localização ajuda os cientistas a acompanhar a dinâmica populacional da espécie.

Preservar áreas naturais

Sempre que possível, manter espaços abertos e evitar intervenções desnecessárias no solo.

Importância ecológica da coruja-buraqueira

Controle de pragas urbanas

A coruja-buraqueira desempenha um papel fundamental no equilíbrio ambiental. Sua dieta inclui insetos e pequenos roedores, contribuindo diretamente para o controle de pragas nas cidades.

Equilíbrio dos ecossistemas

Além disso, a presença da espécie indica a qualidade ambiental de determinadas áreas. Sua conservação está diretamente ligada à manutenção da biodiversidade urbana.

Proteger essa ave significa preservar não apenas uma espécie, mas também o equilíbrio dos ecossistemas em ambientes urbanos.

Ciência e sociedade unidas pela conservação

A iniciativa liderada pela USP reforça a importância da colaboração entre ciência e sociedade. Em um cenário de crescimento urbano acelerado, ações conjuntas são essenciais para garantir a sobrevivência de espécies adaptáveis, mas ainda vulneráveis.

A coruja-buraqueira é um exemplo claro de como a convivência entre humanos e fauna silvestre exige atenção, planejamento e responsabilidade. A participação da população pode ser decisiva para evitar que essa espécie enfrente um declínio irreversível nas cidades brasileiras.