
Manchas solares 4506 e 4507 elevam chance de explosões de classe M
Cientistas estão mais perto de conseguir algo que durante décadas pareceu extremamente difícil: perceber sinais de uma região potencialmente perigosa do Sol antes mesmo que ela se torne claramente visível. Um novo modelo de inteligência artificial conseguiu identificar indícios do surgimento de regiões ativas solares com várias horas de antecedência, criando uma possível nova ferramenta para a previsão do chamado clima espacial.
A tecnologia, batizada de EarlyDetect, foi desenvolvida por pesquisadores ligados ao New Jersey Institute of Technology (NJIT), em colaboração com cientistas de outras instituições e com apoio de dados da NASA. Nos melhores testes, o sistema identificou sinais precursores, em média, 9,24 horas antes de uma região ativa se tornar evidente na superfície do Sol. A NASA descreve a abordagem como capaz de trabalhar em uma janela de até 12 horas.
Isso não significa, porém, que cientistas já possam receber uma notificação dizendo exatamente quando uma explosão solar ocorrerá. O avanço está em uma etapa anterior: identificar precocemente as regiões onde erupções solares e ejeções de massa coronal podem nascer.
E justamente essas horas extras podem fazer diferença.
O que a inteligência artificial conseguiu detectar no Sol
O Sol pode parecer relativamente uniforme quando observado a olho nu com os equipamentos adequados, mas sua superfície é marcada por campos magnéticos extremamente complexos.
Em determinadas áreas, grandes concentrações de campo magnético começam a emergir do interior solar. Elas dão origem às chamadas regiões ativas, frequentemente associadas às manchas solares que posteriormente podem ser observadas na fotosfera.
Essas regiões são especialmente importantes porque funcionam como verdadeiros reservatórios de energia magnética. É nelas que podem ocorrer fenômenos intensos, incluindo erupções solares e, em alguns casos, ejeções de massa coronal.
O problema para os cientistas é que parte desse processo começa antes de existir uma mancha solar claramente visível.
O EarlyDetect tenta enxergar justamente essa fase escondida.
O Sol dá pistas antes de uma região ativa aparecer
Uma região magnética que está subindo em direção à superfície do Sol pode alterar de maneira muito sutil o ambiente ao seu redor.
Entre essas mudanças estão pequenas variações nas oscilações solares. Os pesquisadores conseguem analisar essas ondas por meio de técnicas de heliossismologia, uma área que utiliza oscilações do Sol de maneira semelhante à forma como a sismologia utiliza ondas para investigar o interior da Terra.
O EarlyDetect aprende a reconhecer padrões nessas alterações.
Para isso, os pesquisadores utilizaram observações feitas pelo Solar Dynamics Observatory (SDO), missão da NASA dedicada ao monitoramento contínuo do Sol. Um de seus instrumentos, o Helioseismic and Magnetic Imager (HMI), produz medições do campo magnético, da velocidade da superfície solar e de outras características importantes para esse tipo de análise.
A ideia é perceber algo anormal antes que a concentração magnética tenha se tornado suficientemente intensa para produzir sinais muito mais óbvios.
EarlyDetect usa uma tecnologia parecida com a dos grandes modelos de IA
Outro detalhe chama atenção: o EarlyDetect utiliza uma arquitetura baseada em Transformers, tecnologia que também se tornou conhecida por sua utilização em sistemas modernos de inteligência artificial.
Mas, em vez de procurar relações entre palavras, o modelo procura relações entre dados solares registrados ao longo do tempo.
Ele analisa sequências de informações e tenta descobrir pequenas mudanças que possam indicar que uma região ativa está prestes a emergir.
Durante o desenvolvimento, os próprios cientistas encontraram um resultado inesperado. Técnicas de filtragem utilizadas inicialmente para limpar os dados acabavam removendo parte das pequenas oscilações que continham justamente os sinais mais importantes para a previsão.
Quando essa filtragem foi modificada, o desempenho melhorou.
Nos testes com regiões que não haviam sido utilizadas no treinamento, a versão de melhor desempenho do EarlyDetect conseguiu antecipar o surgimento delas em aproximadamente 9,24 horas, em média.
Isso significa que será possível prever uma explosão solar?
Ainda não.
Essa é a principal diferença entre o avanço científico e a ideia de um verdadeiro “alarme de explosão solar”.
O EarlyDetect prevê sinais associados ao surgimento de uma região ativa. Uma região ativa, entretanto, não necessariamente produzirá uma grande erupção solar ou uma ejeção de massa coronal.
O modelo funciona, portanto, como uma possível primeira etapa de uma cadeia de previsões.
Em um cenário futuro, sistemas poderiam detectar antecipadamente uma nova região ativa, acompanhar sua evolução magnética e combinar essa informação com outros modelos capazes de estimar a probabilidade de erupções.
Os próprios pesquisadores reconhecem que o sistema ainda apresenta falsos alarmes e previsões tardias em determinadas situações e não está pronto para operar como uma ferramenta de alerta em tempo real.
Por isso, falar que a inteligência artificial já consegue prever exatamente quando o Sol “vai explodir” seria ir além do que a pesquisa demonstrou.
Por que ganhar algumas horas pode ser tão importante
Para uma pessoa utilizando um celular em casa, nove horas podem parecer pouco relevantes. Para empresas que controlam satélites, redes elétricas ou sistemas de comunicação, a situação é diferente.
Eventos intensos de clima espacial podem interferir em comunicações por rádio, sistemas de navegação, operações de satélites e outras infraestruturas tecnológicas.
A NOAA, agência responsável pelo monitoramento de clima espacial nos Estados Unidos, já mantém sistemas de previsões, alertas, avisos e escalas de intensidade para diferentes tipos de eventos solares e geomagnéticos.
O grande desafio é aumentar cada vez mais o tempo disponível entre perceber uma ameaça e seus possíveis efeitos.
É aí que modelos como o EarlyDetect podem ganhar importância.
Detectar mais cedo uma região que merece atenção permitiria direcionar observações e modelos mais sofisticados para aquele ponto do Sol antes mesmo de a atividade se tornar evidente.
Da região ativa até uma tempestade na Terra existe um longo caminho
Também é importante separar três fenômenos que frequentemente aparecem juntos em notícias sobre atividade solar.
Uma região ativa é uma área do Sol com campos magnéticos particularmente intensos.
Uma erupção solar ocorre quando uma enorme quantidade de energia magnética é liberada rapidamente, produzindo intensa radiação eletromagnética.
Já uma ejeção de massa coronal, ou CME, envolve o lançamento de grandes quantidades de plasma e campo magnético da atmosfera solar para o espaço.
Nem toda região ativa produz uma grande erupção. Nem toda erupção vem acompanhada de uma CME relevante. E nem toda CME é lançada na direção da Terra.
Por isso, antecipar o surgimento de uma região ativa não equivale a saber que uma tempestade geomagnética atingirá nosso planeta.
Essa cadeia de acontecimentos precisa continuar sendo acompanhada passo a passo.
Atualmente já existem alertas de clima espacial
A previsão de fenômenos solares não começa com o EarlyDetect.
Instituições como a NOAA e a Agência Espacial Europeia já monitoram continuamente a atividade do Sol e produzem previsões de clima espacial. Há sistemas específicos para acompanhar erupções, partículas energéticas, vento solar e tempestades geomagnéticas.
Satélites posicionados em pontos estratégicos entre o Sol e a Terra também conseguem detectar alterações no vento solar antes que elas atinjam nosso planeta.
O ponto L1, localizado entre a Terra e o Sol, é especialmente importante nesse monitoramento. Segundo a ESA, medições realizadas nessa região podem fornecer cerca de 20 minutos de aviso para o impacto de tempestades solares muito rápidas.
O EarlyDetect busca atacar um problema diferente: olhar ainda mais para trás na sequência dos acontecimentos, antes mesmo de uma nova região ativa estar completamente formada na superfície solar.
Uma nova geração de previsões solares pode estar surgindo
O uso da inteligência artificial na previsão do clima espacial vem crescendo.
Em 2025, NASA e IBM apresentaram o Surya, um modelo de inteligência artificial treinado com grandes volumes de dados solares e projetado para auxiliar estudos e previsões relacionadas à atividade do Sol.
Outros projetos também utilizam aprendizado de máquina para estudar ejeções de massa coronal e prever seus possíveis efeitos sobre a Terra.
O EarlyDetect acrescenta uma nova peça a esse quebra-cabeça: a tentativa de perceber que uma região ativa está começando a nascer antes de ela se tornar facilmente observável.
A tendência é que diferentes modelos sejam combinados no futuro, acompanhando o fenômeno desde seu surgimento no Sol até uma possível chegada à Terra.
Pesquisa também criou uma nova base pública de dados solares
O trabalho não ficou restrito ao desenvolvimento do modelo.
Os pesquisadores também disponibilizaram o Solar Active Region Emergence Dataset (SolARED), uma base dedicada ao estudo do surgimento de regiões ativas.
O conjunto reúne informações derivadas do instrumento HMI do Solar Dynamics Observatory e contém observações de dezenas de regiões ativas registradas entre 2010 e 2023, além de áreas consideradas tranquilas do disco solar.
A criação de uma base pública pode permitir que outros grupos desenvolvam novos algoritmos e comparem seus resultados utilizando os mesmos dados.
Isso também pode acelerar uma área em que ainda há muito espaço para avanços.
O alerta de uma tempestade solar ainda não chegou — mas estamos mais perto
O EarlyDetect não é um sistema capaz de anunciar que uma enorme tempestade solar atingirá a Terra algumas horas depois.
Seu avanço é mais específico e, cientificamente, talvez mais interessante: a inteligência artificial está começando a reconhecer mudanças extremamente sutis no Sol antes que uma região magnética ativa esteja completamente visível.
A partir desse primeiro aviso, pesquisadores poderiam ganhar mais tempo para acompanhar a nova região e avaliar seu potencial de produzir fenômenos perigosos.
Ainda será necessário reduzir falsos alarmes, validar o modelo com mais eventos e integrar seus resultados aos sistemas de previsão já existentes.
Mas o estudo mostra que alguns dos sinais que antecedem a atividade solar podem estar presentes muito antes do que nossos olhos conseguem perceber.
E aprender a encontrá-los pode ser um passo importante para transformar a previsão do clima espacial em algo cada vez mais parecido com a meteorologia que usamos diariamente na Terra.
Perguntas frequentes
A inteligência artificial já consegue prever explosões solares?
Ainda não de maneira direta e precisa. O EarlyDetect prevê o surgimento de regiões ativas, que podem posteriormente produzir erupções solares e ejeções de massa coronal. O aparecimento de uma região ativa não significa que uma grande explosão necessariamente acontecerá.
Com quanto tempo de antecedência o EarlyDetect funciona?
Nos testes, a melhor versão identificou sinais precursores com média de aproximadamente 9,24 horas de antecedência. A NASA informa que a abordagem trabalha com previsões de até cerca de 12 horas antes do surgimento das regiões ativas.
O que são regiões ativas do Sol?
São áreas caracterizadas por concentrações intensas e complexas de campos magnéticos. Elas frequentemente estão relacionadas às manchas solares e são locais onde podem surgir grandes erupções e ejeções de massa coronal.
Uma tempestade solar pode afetar a Terra?
Sim. Dependendo da intensidade e da direção do evento, o clima espacial pode afetar comunicações por rádio, navegação por satélite, espaçonaves e até redes elétricas.
O EarlyDetect já está sendo usado para emitir alertas?
Não. A tecnologia ainda está em fase de pesquisa e validação. Os cientistas reconhecem que o modelo pode gerar falsos alarmes ou previsões tardias, por isso ainda não é um sistema operacional de alerta em tempo real.



