Notícias

Caçador de eclipses brasileiro soma 13 eventos observados ao redor do mundo

Para a maior parte do mundo, o eclipse solar total de 12 de agosto de 2026 durou apenas alguns minutos. Para o brasileiro Marcelo Domingues, porém, o fenômeno começou muito antes, com escolha de localização, transporte de equipamentos, análise do céu e preparação de uma estrutura capaz de transformar aqueles instantes de escuridão em imagens transmitidas ao vivo para milhares de pessoas.

Membro do Clube de Astronomia de Brasília (CAsB) e participante do projeto Astronomia ao Vivo, Domingues viajou à Espanha especialmente para acompanhar o eclipse. O destino escolhido foi Castrojeriz, na província de Burgos, onde telescópios e uma conexão via Starlink foram montados para enviar imagens em tempo real ao Observatório Nacional (ON).

A operação ajudou brasileiros a acompanhar um espetáculo que não pôde ser observado de nenhuma região do país. Mais do que registrar o encontro entre Sol e Lua, a viagem mostrou como funciona a rotina de quem literalmente cruza continentes atrás da sombra lunar.

A Espanha viveu um eclipse que esperou mais de um século

A escolha do país não aconteceu por acaso. O eclipse de 12 de agosto atravessou regiões da Groenlândia, Islândia, norte da Espanha e uma pequena área de Portugal. A NASA confirmou que a faixa de totalidade percorreu essas regiões enquanto uma área muito maior do Hemisfério Norte observou apenas um eclipse parcial.

Na Espanha, o momento teve peso histórico. Segundo o Instituto Geográfico Nacional (IGN), foi o primeiro eclipse solar total visível da Península Ibérica em mais de um século. A faixa de totalidade atravessou o território espanhol de oeste para leste, alcançando cidades e regiões entre a costa atlântica e as Ilhas Baleares.

Havia ainda uma dificuldade adicional: o Sol já estava baixo no horizonte.

Em León, por exemplo, a totalidade começou por volta das 20h28 no horário local e durou aproximadamente dois minutos. Pouco depois, o Sol desapareceu no horizonte. O posicionamento tornou a paisagem especialmente fotogênica, mas também aumentou o risco de montanhas, construções ou nuvens baixas bloquearem justamente os segundos mais aguardados.

É aí que começa o trabalho de um caçador de eclipses.

A viagem começa meses antes de a Lua cobrir o Sol

Um eclipse pode ser previsto com enorme precisão. O problema é que isso não significa que será possível observá-lo de qualquer lugar.

A faixa na qual ocorre a totalidade é relativamente estreita. Estar algumas dezenas de quilômetros fora dela pode significar passar de um céu completamente escuro para um Sol que permanece parcialmente visível.

Por isso, quem viaja para observar eclipses precisa combinar astronomia com logística. É necessário avaliar a trajetória da sombra, o horário do fenômeno, a altura do Sol, o acesso ao local e, principalmente, as condições meteorológicas esperadas.

No caso espanhol, registros publicados após o evento mostram que Castrojeriz foi identificado antecipadamente como um dos pontos escolhidos para a observação. Domingues instalou ali equipamentos ópticos e infraestrutura de conexão para que o fenômeno não ficasse restrito às pessoas presentes no local.

Esse planejamento explica por que a experiência de assistir a um eclipse total está longe de ser simplesmente comprar uma passagem e olhar para cima.

Quando tudo dá certo, o dia parece mudar de regra

Durante um eclipse total, a Lua passa exatamente diante do disco solar para quem está dentro da faixa de totalidade.

A diferença entre observar 99% e 100% do Sol coberto é maior do que o número sugere. Quando ainda existe uma pequena porção da superfície solar exposta, o ambiente continua relativamente iluminado. Na totalidade, a transformação ocorre rapidamente.

O céu escurece, a temperatura pode cair e a coroa solar, atmosfera externa do Sol normalmente ofuscada pelo brilho intenso de sua superfície, torna-se visível ao redor da Lua. Observadores também podem perceber fenômenos como as chamadas pérolas de Baily e o efeito conhecido como anel de diamante nos instantes imediatamente anteriores ou posteriores à totalidade.

Foi justamente esse conjunto de mudanças que transformou a Espanha em um dos principais destinos astronômicos do ano.

A Reuters registrou multidões viajando para áreas rurais do país, com autoridades preparando operações especiais para lidar com o enorme deslocamento de visitantes.

Para quem passou meses se preparando, no entanto, a recompensa continua sendo medida em segundos.

Marcelo Domingues já fez outras viagens atrás da sombra da Lua

A Espanha está longe de ser a primeira experiência de Domingues com eclipses.

Na entrevista que deu origem à reportagem do Olhar Digital, ele foi apresentado como um caçador de eclipses com 13 eventos no currículo.

Existe uma diferença interessante quando se consultam registros especializados. O Eclipse Chaser Log, plataforma internacional usada por observadores para registrar experiências, lista atualmente 19 eclipses observados por Marcelo Domingues, contando diferentes tipos de fenômenos e circunstâncias de observação. A divergência provavelmente está relacionada ao critério utilizado para contabilizar expedições e observações.

O histórico registrado na plataforma passa por países como China, Indonésia, Argentina, Estados Unidos, Austrália e Chile.

Em julho de 2009, por exemplo, Domingues registrou um eclipse total na China com mais de cinco minutos de totalidade. Depois vieram novas expedições, incluindo Indonésia em 2016, Estados Unidos em 2017, Argentina em 2019 e Austrália em 2023.

A sucessão de viagens revela uma característica comum entre os chamados eclipse chasers: depois de experimentar a totalidade, muitos passam a organizar as próximas férias e viagens em torno das futuras trajetórias da Lua.

Em 2017, uma missão brasileira tentou ver o eclipse da estratosfera

Uma das viagens de Domingues teve um componente científico especialmente ambicioso.

Durante o eclipse total que atravessou os Estados Unidos em agosto de 2017, ele participou da Missão Kuaray, parceria entre pesquisadores ligados à Universidade de Brasília e integrantes do Clube de Astronomia de Brasília.

A equipe levou plataformas com câmeras para a estratosfera, a aproximadamente 30 quilômetros de altitude, com o objetivo de registrar o eclipse e a sombra da Lua em imagens de 360 graus.

Segundo a UnB, o grupo conseguiu lançar e posteriormente recuperar os equipamentos. A iniciativa uniu observação astronômica, tecnologia e divulgação científica em uma experiência que foi muito além da fotografia tradicional do Sol.

Anos depois, registros de Domingues continuaram aparecendo em transmissões e materiais de divulgação científica. Uma imagem feita por ele durante o eclipse anular de outubro de 2023, em Canaã dos Carajás, no Pará, por exemplo, foi utilizada em conteúdos sobre astronomia publicados no Brasil.

Da Espanha para milhares de brasileiros

A expedição de 2026 ganhou uma dimensão diferente porque o eclipse simplesmente não poderia ser observado do Brasil.

A sombra mais escura da Lua percorreu regiões do Hemisfério Norte. Assim, nem mesmo um eclipse parcial foi visível do território brasileiro naquele dia.

A saída foi levar a experiência para a internet.

O Observatório Nacional realizou uma transmissão de aproximadamente cinco horas dentro do programa O Céu em sua Casa: observação remota. Domingues forneceu imagens diretamente de Castrojeriz, enquanto outros parceiros enviaram registros de diferentes regiões da Europa.

Segundo o ON, a cobertura chegou a 67 mil visualizações no YouTube, teve pico de cerca de 2,5 mil espectadores simultâneos e recebeu aproximadamente 3 mil mensagens no chat. As imagens também foram retransmitidas por outros veículos de comunicação.

Isso modifica um pouco o significado de ser um caçador de eclipses.

A viagem continua sendo motivada pela oportunidade de presenciar um fenômeno extremamente raro em determinada região, mas câmeras, telescópios e internet permitem que uma única expedição coloque milhares de pessoas virtualmente dentro da faixa de totalidade.

Por que não basta observar 99% de um eclipse?

Para quem nunca acompanhou um eclipse total, pode parecer exagero viajar milhares de quilômetros quando outra cidade verá 98% ou 99% de ocultação.

Astronomicamente, porém, existe uma diferença fundamental.

Fora da faixa de totalidade, mesmo uma pequena parte da fotosfera solar permanece exposta. O céu não atinge o mesmo grau de escuridão e a coroa solar não pode ser contemplada da mesma maneira.

É somente quando o observador entra na umbra — a região mais escura da sombra lunar — que o disco brilhante do Sol desaparece completamente.

Essa faixa atravessa apenas uma pequena parte da superfície terrestre em cada evento. É justamente essa limitação geográfica que transforma os eclipses totais em oportunidades de viagem.

O fenômeno não é necessariamente raro no planeta. O raro é estar no lugar certo quando ele acontece.

Observar um eclipse exige proteção adequada

A beleza do fenômeno não elimina um risco importante: olhar diretamente para o Sol durante as fases parciais pode causar lesões graves nos olhos.

Óculos de sol comuns não oferecem proteção adequada. A NASA recomenda equipamentos específicos para observação solar que atendam à norma internacional ISO 12312-2. Câmeras, binóculos e telescópios também precisam de filtros solares instalados corretamente na parte frontal da óptica.

Durante um eclipse parcial ou anular, nunca existe um momento em que seja seguro observar diretamente o Sol sem proteção apropriada.

Em um eclipse total, há uma exceção muito breve: somente durante a totalidade completa, quando nenhuma parte da superfície brilhante do Sol permanece visível. Assim que o primeiro ponto luminoso reaparece, a proteção deve voltar a ser utilizada.

Esse cuidado também faz parte da preparação de expedições como as realizadas por Domingues.

A próxima grande caçada já tem data

Quem perdeu o espetáculo espanhol não precisará esperar décadas para acompanhar outro grande eclipse.

Em 2 de agosto de 2027, um novo eclipse solar total atingirá o sul da Espanha e atravessará regiões do norte da África e do Oriente Médio. No ponto de maior duração, no Egito, a totalidade poderá chegar a aproximadamente 6 minutos e 23 segundos, tornando o evento um dos eclipses totais mais longos deste século.

Antes disso, os brasileiros terão uma oportunidade mais próxima.

Em 6 de fevereiro de 2027, ocorrerá um eclipse solar anular. A faixa onde o chamado “anel de fogo” será completo passará principalmente pelo oceano, mas o fenômeno poderá ser observado de forma parcial em grande parte do Brasil. O próprio Observatório Nacional já informou que pretende preparar uma nova transmissão.

E há um evento ainda mais aguardado no horizonte brasileiro: um eclipse solar total voltará a atravessar partes do país em 12 de agosto de 2045.

Para os caçadores de eclipses, entretanto, esperar tanto tempo provavelmente não é uma opção.

A história de Marcelo Domingues mostra justamente o contrário. Quando a próxima sombra da Lua cruzar algum ponto acessível do planeta, haverá novamente mapas sendo estudados, equipamentos sendo preparados e passagens sendo compradas.

Para a maioria das pessoas, serão poucos minutos de escuridão.

Para quem caça eclipses, a aventura começa muito antes.

Perguntas frequentes

Quem é Marcelo Domingues?

Marcelo Domingues é um observador e divulgador de astronomia ligado ao Clube de Astronomia de Brasília e ao projeto Astronomia ao Vivo. Ele participa de expedições para acompanhar eclipses solares e já colaborou com transmissões do Observatório Nacional.

Onde Marcelo Domingues viu o eclipse de 2026?

Ele acompanhou o eclipse solar total de 12 de agosto de 2026 em Castrojeriz, na província espanhola de Burgos. No local, montou telescópios e uma conexão via Starlink para transmitir imagens ao Brasil.

O eclipse solar total de agosto de 2026 foi visível no Brasil?

Não. O Brasil ficou fora tanto da faixa de totalidade quanto da região de eclipse parcial. A faixa total atravessou áreas como Groenlândia, Islândia, Espanha e uma pequena região de Portugal.

Por que caçadores de eclipses viajam tanto?

A totalidade só pode ser observada dentro de uma estreita faixa percorrida pela umbra da Lua. Por isso, quem deseja assistir a vários eclipses totais precisa viajar para diferentes regiões do mundo.

Quando haverá outro eclipse solar visível no Brasil?

Um eclipse solar anular ocorrerá em 6 de fevereiro de 2027 e será parcialmente visível em grande parte do Brasil. Para um eclipse solar total atravessando território brasileiro, a próxima grande oportunidade será em 12 de agosto de 2045.

Como observar um eclipse solar com segurança?

Nas fases parciais, é necessário utilizar óculos ou visualizadores solares adequados, preferencialmente compatíveis com a norma ISO 12312-2. Óculos escuros comuns, radiografias e filtros improvisados não são seguros.