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Brasil há 100 anos: veja como era a vida e a sociedade

Imagine que você acordou às seis horas da manhã e vestiu seu terno para trabalhar. Você escovou os dentes, passou pomada no cabelo e saiu. Na esquina da sua casa, há um jornaleiro e você compra o jornal do dia, afinal, é importante se manter informado. Ao olhar para a capa, você vê que o dia é 15 de setembro de 1921. Só pode ser pegadinha! Você está no Brasil, com certeza. Você consegue ver o Pão de Açúcar no horizonte e todos falam português, mas, ao olhar ao redor, você percebe que todo mundo parece que parou no tempo.

As mulheres estão com cachos no cabelo e vestidos que você só viu em filmes. Os carros são todos antigos, considerados relíquias em 2021 e vendidos por um preço alto, inclusive, mas agora todos estão andando neles. Então, você escuta um alarme que lentamente fica mais alto, e, de repente, está na sua cama de novo. Mas, ao olhar pela janela, vê um Fiat Uno 2010 quase atropelar uma jovem de short jeans. Era apenas um sonho, por sorte!

Até porque como você iria viver em 1921? Já pensou? Sem internet, sem celular, notebook, seu festival de música preferido. Aliás, sem seus artistas preferidos, suas comidas internacionais preferidas ou as invenções do tempo, como coxinha de brigadeiro. Parece ser péssimo! Ou será que é? Como viviam os brasileiros de 1921?

O panorama demográfico e social do Brasil de 1921

O Brasil de um século atrás era um território de contrastes profundos e dimensões que ainda estavam sendo compreendidas por sua própria gente. Com cerca de 30 milhões de habitantes, a população brasileira representava apenas 15% do que é hoje. Imagine cidades muito menos densas e um silêncio que hoje não existe mais.

A transição do campo para a cidade

Mais ou menos metade dessas pessoas viviam nos centros urbanos, mas o país ainda era muito agrário e muitas terras estavam sendo desbravadas. A fronteira agrícola avançava, e o interior do Brasil era um mistério para a maioria dos que habitavam o litoral. A vida rural ditava o ritmo do país, influenciando desde a economia até os costumes familiares.

O início da industrialização brasileira

A industrialização só estava no começo, então já esquece a possibilidade de arrumar um pacotinho de doces industrializados. Se você quisesse um doce, ele provavelmente teria sido produzido por uma confeiteira artesanal que vendia seus produtos na rua ou em pequenas padarias locais. O consumo era direto, fresco e sem conservantes, mas também com muito menos variedade.

A educação brasileira e os desafios do analfabetismo

Se hoje discutimos a qualidade do ensino superior ou o uso de tecnologia em sala de aula, em 1921 a luta era básica: aprender a ler e escrever. A realidade educacional da época era um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento da nação.

O cenário do ensino primário

Uma diferença grande é que em 1921 cerca de 80% da população era analfabeta! A grande maioria dos brasileiros mal sabia assinar o próprio nome e fazia algumas operações matemáticas fazendo contas nos dedos. A escola era um privilégio de poucos, e o acesso ao conhecimento era a principal barreira de classe social.

O pedido por reformas educacionais

Dessa forma, foi justamente nesse período que começou um pedido forte por mudanças na qualidade de vida do brasileiro, com educação para todos por meio da ampliação da escola primária e de reformas educacionais. Intelectuais e políticos começavam a perceber que o país não poderia avançar sem um povo alfabetizado.

A falta de uma rede organizada de ensino

Ainda não existia uma rede organizada de ensino público, então cada escola era diferente, causando ainda mais contraste entre as pessoas do mesmo nível escolar. O currículo dependia muito de quem ensinava, e a padronização do ensino era um sonho distante.

Rio de Janeiro: a face brilhante da capital federal

Nessa época, o Rio de Janeiro era a capital do país e o grande palco das transformações sociais. Era o “espelho” do Brasil para o mundo, onde tudo o que era moderno chegava primeiro.

A ilusão das revistas e propagandas

As revistas e jornais mostravam fotos elegantes de pessoas, dando a impressão de uma maior escolaridade e poder aquisitivo. As propagandas mostravam que o país estava em desenvolvimento, dando a ideia de que tudo estaria melhorando com uma rapidez extraordinária. Entretanto, essa era uma “vitrine” que escondia as dificuldades dos subúrbios e das regiões mais afastadas.

O consumo e os produtos da época

Ao folhear os periódicos de 1921, você encontraria a propaganda do Guaraná Champagne, das roupas de banho da Casa Colombo ou ofertas de carros de luxo para passeios, excursões ou casamentos. Aliás, foi nessa época que os primeiros carros foram montados em solo brasileiro, marcando o início de uma paixão nacional.

O curioso caso do lança perfume

O campeão de vendas entre os produtos para recreação era o então legalizado lança perfume, completamente aceito na sociedade. Que diferença! A marca Ypiranga afirmava em suas propagandas que seu produto era o melhor entre os concorrentes estrangeiros e nacionais. O que hoje é proibido, naquela época era o ápice da diversão carnavalesca e social.

Eventos marcantes e a cultura popular

O Brasil de 1921 também era feito de grandes eventos que paravam as cidades. A visita de autoridades estrangeiras era motivo de feriado e comoção popular.

A visita real do rei Alberto I

No ano anterior, o rei Alberto I da Bélgica visitou o país, dispensando o protocolo real e agindo como um cidadão comum. Ele até tomou banho de mar em Copacabana, o que inspirou diversas músicas na época. A música “Protocolo” dizia: “O rei Alberto, ao pisar nesse solo, mandou às favas o protocolo, conquistou logo com feliz maestria dos brasileiros a simpatia”.

Fatos curiosos da rotina urbana

Uma grande ressaca do mar também virou notícia na época, rendendo muitas fotos e curiosidade popular. Enquanto isso, em São Paulo, os mercadinhos dominavam a parte de baixo do viaduto Santa Efigênia. A economia pulsava no ritmo das commodities: a edição do dia 25 de maio de 1921 do jornal Folha da Noite comemorava o aumento do preço do café brasileiro em outros países, que era o principal motor da riqueza nacional.

A política sob a gestão de Epitácio Pessoa

No Palácio do Catete, as decisões políticas tentavam equilibrar um Brasil que queria ser moderno com estruturas de poder ainda muito tradicionais.

O perfil do presidente e o contexto militar

O presidente da República em 1921 era o paraibano Epitácio Pessoa que, além de político, era diplomata e professor universitário. Seu governo foi marcado por tensões crescentes e revoltas militares que chegaram ao ápice nove anos depois, no golpe de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.

A sucessão presidencial em pauta

Ainda na política, o debate sobre a sucessão presidencial já começava a ferver nos bastidores, com as oligarquias estaduais disputando a influência sobre o próximo ocupante da cadeira máxima do país.

O entretenimento e o esporte em 1921

Nem só de café e política vivia o brasileiro. O lazer estava nas páginas das revistas e nos gramados que começavam a atrair multidões.

As estrelas da mídia mudo

Longe da política, você poderia apreciar a capa da revista “Scena Muda”, que destacava a atriz de cinema mudo Bebe Daniels. O cinema era a grande janela para o mundo, mesmo sem som. Na galeria do “Jornal das Moças”, a senhorita Baby de Castro teve seu perfil incluído, com o destaque de ser adepta fervorosa do Clube de Regatas Vasco da Gama.

O futebol ganhando o coração das massas

No esporte, o cenário nacional estava se consolidando. Em 1921, foi o Flamengo que se sagrou bicampeão no Campeonato Carioca. No Rio Grande do Sul, o Grêmio levantou a taça de campeão, e em Minas Gerais, um marco histórico: o primeiro clássico mineiro aconteceu em Belo Horizonte entre o Cruzeiro (então Palestra Itália) e o Atlético Mineiro.

Viver em 1921 seria um choque cultural imenso para qualquer habitante do século XXI. Entre a elegância dos ternos e a dureza de um país com 80% de analfabetos, o Brasil de cem anos atrás era um lugar de promessas, transições e uma simplicidade que hoje parece ficção.